quarta-feira, 26 de julho de 2017

O mar morreu

Os meus vizinhos ingleses estão agora mais calmos e dormem a manhã na cama. Um desperdício digo eu. O escritor já deve ter terminado o livro, toma o pequeno almoço calmamente com a esposa na varanda tal como nós.  Cumprimentamo-nos com um aceno de cabeça pois continuo sem saber que raio de língua falam eles que mais me parece um ladrar estranho, não pesco um telho, norueguês ou finlandês quem sabe. E o mar morreu, praticamente nem se mexe. Houve-se um leve ondejar que gosto de ouvir ainda na cama com a porta da sacada aberta e a olhar o céu, acalma-me os sentidos, embala-me a alma. Da piscina nem quero ouvir falar, ao sol abrasador não consigo estar, vou até à praia caminhar. Estas férias já caminhei uns sessenta quilómetros e li quinhentas páginas de livros. Aliás, cá em casa fomos todos mordidos pela mosca tzé tzé e nem um braço nos apetece mexer. Quem diria que me ia tornar numa apreciadora do nadismo.

sábado, 22 de julho de 2017

Dois tons de azul

O vizinho da casa do lado direito este ano deve ser escritor. Tecla furiosamente o dia todo sem levantar os olhos por um momento sequer. Quando não está a teclar, está a ler ou a beber café. Aparentava estar sozinha na casa mas hoje vi uma mulher e duas crianças. Levantou por fim os olhos do teclado mas ainda não os ouvi falar, não sei de que nacionalidade serão.
Os vizinhos do lado esquerdo são ingleses e todas as manhãs vêm juntar-se a eles todos os outros ingleses do condomínio, cada vez são mais. Começam a beber e a fumar aí pelo meio-dia e à tarde estão tão bêbedos que é uma animação, só espero que não nos venham vomitar nas nossas espreguiçadeiras.
Somos os únicos Tugas por aqui o que os faz olhar para nós como se de um espécime esquisito se tratasse, nem sei sequer se nos conseguem ver com tanto álcool no bucho. O escritor sei eu que não vê ninguém, o nadador salvador da piscina este ano é novo e engoliu um garfo, além disso o gato comeu-lhe a língua com certeza, também não nos vê. O jardineiro é portanto o único ser que nos cumprimenta pois já nos vê aqui há uns dezoito anos.
Mas isto não interessa nada, o que interessa na verdade são os vizinhos da frente. Dois tons de azul com som de fundo.

Bom Dia alegria

terça-feira, 18 de julho de 2017

Mala de férias

Desta vez vai cheia, cheia de cansaço, cheia de apatia, cheia de desalento, cheia de tudo e de todos. Nem sequer sei explicar porque tenho a mala tão cheia ou como fui deixando que enchesse desta maneira. Nem me reconheço nesta mala. Só espero conseguir esvaziá-la para eu mesma caber lá dentro e voltar com ela.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Perry

Chegou num dia de verão ao colo de meu pai, eramos ambos umas crianças. 
Uma pequena e engraçada bola de pelo cor de fogo, Perry, o meu cão.
O meu Perry não estava preso com uma corrente como os outros cães da vizinhança, nem ladrava raivosamente a tudo e todos que passavam perto, ele tinha um canil de cimento, grande, vedado com rede e na maioria dos dias andava solto pelo quintal brincando comigo. Lá em casa sempre fomos habituados a gostar, cuidar e respeitar os animais e tivemos vários, mas o meu Perry era especial. Ele sabia quando eram horas de lanchar ou jantar e ladrava até eu o acompanhar até casa, ele sabia que nos passeios tinhamos de olhar a ver se vinham carros para podermos atravessar e parava, ele sabia a que distância tinha correr ao meu lado quando eu ia de bicicleta e sabia o caminho para a fonte quando minha mãe me pedia para ir buscar água. O meu Perry ficava sentado encostado a mim quando eu estava de castigo porque me portava mal e muitas vezes deitava a cabeça no meu colo.
O meu Perry e eu crescemos juntos, corriamos, saltávamos e até dançávamos a valsa os dois. Mas o Perry foi treinado para caçar coelhos bravos e perdizes e a determinada altura começou a saltar os muros de casa e a andar muito tempo fora. Foi atropelado três vezes sobrevivendo sempre devido aos nossos cuidados. Eu, chorava. Chorava sempre até ele ficar bom e ele ficava. Um dia matou uma ninhada de patos de uma vizinha e ficou lá deitado à espera que o felicitassem por tamanha caçada, outra vez roubou um molho de chouriços da mercearia da nossa rua e enterrou-os no quintal e outra vez ainda, roubou um pão-de-ló inteirinho da cozinha de mamãe. Ele caçava tudo e por isso começou a ter de ficar preso no canil. Eu tinha de prometer que não tirava os olhos dele para o poder soltar.
Certo dia, já muito velhinho, esgueirou-se para o meu quarto e partiu, em paz, enrolado na colcha da minha cama, tinhamos cerca de dezasseis anos...
Ainda hoje o vejo de orelhas e patas felputas cor de fogo a correr ao vento no quintal.




quarta-feira, 12 de julho de 2017

Livre

Há vinte e oito dias, doze horas e quarenta e três minutos que não fumo. Este era o ano, o do meu cinquentenário, aquele em que eu decidi que iria dar mais uma reviravolta na minha vida. Não foi em Janeiro ou em Fevereiro, muito menos em Março mas foi em Junho, por alturas da grande viagem a Santiago, por alturas da notícia do cancro da mama de duas amigas, foi nessa altura que o clic se deu em mim. Que coisa estúpida fumar! Como podia eu, uma adepta do desporto e da vida saudável....
Não que até fosse uma grande fumadora, mas dois ou três cigarros que fumasse por dia era ser fumadora na mesma e a prova disso é a aplicação que me lembra disso todos os dias. Neste momento poderei ter mais onze horas e meia de vida do que teria se nunca tivesse fumado. Bom, quando morrer, não morro às dez da manhã mas sim às nove e meia da noite, vá. 
Não importa, não importa se vou a tempo de alguma coisa, o que importa é que há vinte e oito dias que estou livre de mais um vício.
Entretanto vou para freira.