terça-feira, 27 de junho de 2017

Madrugadas

O sino da igreja repica as seis da manhã e eu já acordada. Chateia-me não conseguir aproveitar a noite para dormir, no entanto aprecio aqueles momentos em que posso dar largas à imaginação e ao pensamento sem ter de o cortar a meio porque tenho isto ou aquilo para fazer. Tenho calor, empurro a roupa com os pés , dá - me o frio volto a aconchegar-me. Na ombreira da porta vislumbro os contornos da Rosa Maria e do Zé, os meus dois gatos, sentados à espera que um de nós se levante para lhes dar o Pires de leite. Somos de hábitos. Tomara que cheira-se a café acabado de fazer. Mas não. Espreguicei-me lentamente e dei largas ao pensamento.
Hoje vai ser um bom dia.

domingo, 25 de junho de 2017

Sábado à tarde

Fui ao baú da paz interior e tirei meio quilo. Juntei-lhe um rio tranquilo, uma planície verdejante, uma sombra e um banco para descansar. Para a água atirei o stress da semana de loucos, na areia das bermas do rio enterrei as preocupações e os contratempos, nas nuvens cinzentas do céu escondi as tristezas. Fechei os olhos e respirei fundo, cheirava a rio e a verde e quando os abri fez-se magia, era paz o que sentia.


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Dante

Mal cheguei da minha aventura levei de chofre com a realidade. O voltar ao trabalho e à rotina no dia seguinte, os fogos e as mortes, doenças de alguns amigos do peito, dois deles a quem foi diagnosticado cancro, outro hospitalizado... Há várias noites que não durmo. Esta inquietação, este desassossego, este calor consome-se por dentro e por fora. Abro os olhos e vejo pessoas a morrerem, fecho os olhos e parece que vejo chamas. Tenho com certeza algum botão avariado.
Esta noite resolvi beber um copo de vinho e tomar um comprimido para dormir. A cambalear consegui subir as escadas e chegar à cama mas passadas três horas oiço nitidamente uma briga de gatos na rua e achei que era o meu Zé. Fui salvá-lo.  Três da manhã e eu na rua de pijama à procura do Zé. Nada! Voltei a subir as escadas e fui ver o meu aspecto de alucinada no espelho da cada de banho. Lá estava o filha-da-mãe-do-gato, à fresca, esparramado no chão a dormir!
Ele estava bem, eu é que voltei a não dormir. Abaixo gatos e moto-serras e fogos e doenças e outras merdas que tiram o sono e uma gaja!!

terça-feira, 20 de junho de 2017

Limbo

O gosto e a vaidade com a aparência acicatou-se-me quando fui da Província estudar para Lisboa e já com dezoito por conta da minha colega de quarto que era tão feminina, tão mimosa, tão bonita. Acabei a tentar ser como ela e a conjugar roupas, a comprar sapatos e malas da mesma cor, sombras para os olhos, pulseiras e aneis, a colocar merdas na cara e a usar soutiãs de renda. Nunca consegui no entanto desfazer-me do meu outro eu, o da cara lavada, dos ténis, da roupa confortável e desportiva que em nada se coaduna com a minha profissão. E por isso ando há anos neste limbo, a tentar equilibrar os meus dois eus, ponho e tiro, ponho e tiro, até chegar a um acordo comigo própria todos os dias.
Nesta grande viagem tinha de carregar com o corpo todas as minhas necessidades e decidi não levar luxos. Nos alforges levei apenas dois equipamentos para pedalar, uma roupa para as quatro noites, chinelos, um agasalho, toalha, duas cuecas e dois soutiãs e uma bolsa com miniaturas de produtos de higiene essenciais.O resto da bagagem continha ferramentas, cãmara de ar, dropout suplente, comida, documentos, dinheiro, máquina fotográfica, telemóvel e a caderneta de peregrino. Meu Deus! O que me custou transportar aqueles nove quilos e ao fim do segundo dia, sem a roupa ainda lavada, nem um soutiã tinha para vestir para ir jantar.
Viver no limbo é lixado. Se por um lado até vivi confortavelmente durante cinco dias sem entender para que precisamos de tantas merdas, por outro senti-me nua. Faltava-me o meu perfume, o meu cheiro, a minha base para disfarçar o cansaço, o secador de cabelo para não parecer uma maluca e a minha almofada. Ai a minha almofada! Ah! Faltaram-me uns tampões para os ouvidos para não ouvir aquela moto serra toda a noite a trabalhar naquele albergue...

Voltei, voltei... voltei de lá!

Foram 480 kms de aventura, de calor, de camaradagem, foi o espírito de mosqueteiro, isto é, "um por todos e todos por um". Foram cinco dias de felicidade, de desafio, de dificuldades ultrapassadas, dia a dia, pedalada a pedalada.
Não sei se cheguei mais serena, se mais inquieta, não sei se encontrei o que procuro ou se vou continuar na minha luta. O que eu sei é que seguramente cheguei diferente. O que eu sei é que as lágrimas que me saltaram dos olhos assim que cheguei finalmente à praça em Compostela vieram do coração. Foram lágrimas de alegria, foram de felicidade, foram de gratidão e superação. Foram também de alívio, que já me doía o cú e as pernas e as costas e tudo e mais alguma coisa.
Há experiências, há pessoas, há situações que nos tornam melhores.
Sim, cheguei uma melhor pessoa, cheguei seguramente mais forte e com outra perspetiva de vida.






domingo, 11 de junho de 2017

A Leste

Sei que ando arredia, ausente e muito sem tempo, mas a minha cabeça anda a mil e o meu pensamento já está em viagem há muitos dias, não vejo hora de finalmente partir na minha bike, carregada até aos olhos para fazer cerca de 500 kms. Maluca eu sei, mas mais maluca do que eu é certamente a Loira do Também quero um blog que me desafia para estas coisas e faz muito bem pois ajuda-me a concretizar sonhos. Pena tenho de não viver mais perto dela para partirmos mais vezes à aventura.
Obrigada Loira.


quinta-feira, 8 de junho de 2017

As pulgas amestradas

Primeiro mandaram-nas saltar e elas, tentaram saltar. Ainda não tinham aprendido a saltar já as mandavam rodopiar. Elas, tentaram rodopiar. Não tinham ainda conseguido bem rodopiar, mandaram-as nadar. Depois tinham de saltar, rodopiar  e nadar. Como ainda não tinham aprendido a nadar, morreram afogadas.
Filhas da puta das pulgas que não sabem fazer um cara-go!!!!

terça-feira, 6 de junho de 2017

Será que é só nos filmes?

Assim que chega a casa, suspira, descontrai e aos poucos vai tirando a máscara. Os sapatos de salto, a roupa certinha e apresentável, tira as pulseiras e os brincos, prende o cabelo. Veste uma roupa larga e confortável, amarrotada de ter sido atirada à pressa para o roupeiro no dia anterior, uma t-shirt velha, umas calças mais que usadas, mas o que importa isso, afinal é para andar em casa, na intimidade do lar, sem máscaras, sem maquilhagem que disfarça as gelhas do dia e encobre os olhos cansados, sem um penteado que disfarça o cinzento da alma,  sem o sorriso número sete que esconde as contrariedades. Sabe tão bem poder estar finalmente na pele que tão bem se ajusta a si. Tira a loiça da máquina, põe roupa a lavar, faz o jantar, dobra cuecas e meias, trata dos filhos, faz o jantar, arruma a cozinha. Uf! Um banho, um pijama fofinho, um pouco de creme nas mãos. Exausta, descansa... Caramba. Nos filmes e nas revistas e nas séries, as mulheres estão em casa, bonitas e apresentáveis, de batom nos lábios, penteadas, calçadas, engraçadas, sem nada para fazer que não seja mimar maridos e filhos, ler, conversar, ouvir música, pintar, escrever e rir muito... Será que é só nos filmes?

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Quando eu vejo o mundo

Desafios são desafios.
Mas mais do que um desafio, mais do que um treino para a grande viagem que é já na próxima semana, essa sim O Desafio, mais do que um teste a mim própria, à resiliência, à capacidade de sair da zona de conforto, à aptidão para ultrapassar dificuldades, ao poder da mente que no fundo comanda o nosso corpo nisto tudo, mais do que um teste à capacidade física, estou a falar, claro, de um desafio de bicicleta pelo mato que envolve muitos quilómetros, muita dificuldade técnica e física, muitas subidas e descidas assustadoras...
Mais do que chegar a casa suja e a cheirar a cavalo, moída até aos olhos, as pernas e os braços arranhados das silvas e dos arbustos, o joelho negro de uma pequena queda a descer a alta velocidade, eu vi o mundo, eu alimentei a minha paixão...









quarta-feira, 31 de maio de 2017

Ei-lo

O pinheiro manso:


Hoje não me disse grande coisa até porque nem tempo tive para olhar para ele. Pareceu-me ouvi-lo sussurrar que as minhas favas guisadas com ovos escalfados eram as melhores do mundo. Fui a correr cozinhá-las, mas já vi que o tipo é muito mentirosos pois cá em casa, além da minha pessoa, ninguém gosta.. :(

terça-feira, 30 de maio de 2017

Pinheiro manso

Enquanto trabalho consigo observar do janelão, além de muitas outras árvores, um enorme pinheiro manso que todos os dias chama a minha atenção. Ali recortado no céu, majestoso, maior do que todos os outros, um tronco enorme e grosso, as braças fortes e robustas, formando uma copa redonda e farfalhuda que deve albergar centenas de pássaros assim que cai anoite. Faz-me lembrar um pai, uma amigo, um chefe, um patrão....
Hoje, empurrado pelo vento forte gesticulava tanto, mas tanto de um lado para o outro que parecia furioso com alguém. De tanto olhar aqueles movimentos quase fiquei hipnotizada. Imaginei-o ainda maior, assustador, a crescer para mim e a proferir palavras que eu não entendia.  Desviei o olhar.
Mais tarde voltei a olhá-lo. O sol tornou-o dourado, parecia que bailava, abanava-se suavemente. Para mim ele sorria ao mesmo tempo que dizia "deixa lá isso, não leves tudo tão a peito".
Veremos o que me vai dizer amanhã.

domingo, 28 de maio de 2017

Boa tarde Célia

Disse-me uma vez uma das filhas da vizinha da frente que eu fui criada como menina fina e não sabia nada da vida. A Célia, que não vejo há anos, havia já casado pois engravidara ainda adolescente e vivia longe mas tinha vindo visitar os pais. Ora, eu buzinei à Célia não sabendo de quem era o carro que estava estacionado em frente da minha garagem, a mesma onde eu queria entrar e não conseguia porque a Célia lá tinha deixado o carro.
Depois da buzinadela a Célia saiu disparada do portão, parecendo que estava do lado de lá à espera que eu buzinasse para soltar o leão que estava dentro dela. Eu, quando a vi dirigir-se a mim com o cabelo encrespado, o ar tresloucado e a lingua afiada deixei-me ficar à espera, dentro do carro. (Ai não!) Bom, a Célia parecia que tinha ali muita coisa entalada e falava sem respirar. Sim, a Célia, que eu lembrava-me, a que tinha em criança a aparência de um gato assanhado e selvagem, que nunca vinha à rua brincar nem falava com ninguém, mas ali, naquele dia, a lingua soltou-se-lhe e ela falou, falou, falou. De tudo o que disse e que o meu escudo filtrou, ficou-se-me na memória, que eu estava a buzinar-lhe porque fui criada como uma princesa, sim, eu que tinha tido tudo, até uma bicicleta e vestidos aos folhos, eu tinha era a mania que era fina, agora buzinar aos outros, vejam lá bem.
O meu maxilar inferior foi descaindo e ficando boquiaberto  por não compreender que raio de conversa era aquela, eu nem me lembrava que se tive ou não vestidos aos folhos e fiquei sem palavras, o que enervou ainda mais a Célia.
A vizinhança veio à rua e a Célia teve então todos os olhos postos em si com muita atenção, boquiabertos por a ouvirem falar. O trânsito ia-se acumulando atrás de mim que me encontrava no meio da estrada à espera de poder entrar em casa e alguém tentou acalmá-la para que tirasse o carro. Ela lá caiu em si e, a deitar fumo dos pneus, lá arrancou a cento e duzentos à hora e a gesticular ainda até deixarmos de a ver.
Pedi desculpa, entrei na garagem, saí do carro, respirei fundo e pensei: "Boa tarde Célia"

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Espiga e bruxaria


Hoje foi Dia da Espiga, a tradicional quinta-feira da Ascensão, feriado Municipal aqui por estas bandas do Oeste da Nação. 
Como a tradição ainda é o que era foi dia de "piquenicar" com os amigos no pinhal, dia de comer coelho com arroz de ervilhas e beber vinho ao ar livre, dia de deixar a conversa em dia, gargalhar e fazer uma incursão pelos pinhais à la pata até ficar com os pés e as pernocas bem sujas. Os miúdos andavam por ali e chegam um pouco assustados com algo bem estranho que viram ali perto, numa encruzilhada....


Bruxarias sem dúvida. Um mundo tão curioso quanto assustador, perturbador até. E como Google is my friend que eu sei, andei a pesquisar. Credo! Isto é todo um mundo de feitiçarias para tudo e mais alguma coisa. Só não é rico e belo e tem amor e tudo e tudo quem não quer. Há receitas para todos. MEDO!

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Bolhas

São bolhas aqueles escudos que criamos à nossa volta onde achamos estar protegidos de tudo e de todos. São bolhas em forma de rede de dentro das quais só vemos e ouvimos aquilo que queremos e onde apenas deixamos entrar quem nos faz bem, quem nos faz feliz. São bolhas aqueles céus onde apenas queremos ver sol e mar e flores. São bolhas as redomas que erguemos que por vezes nos fazem sentir capazes de tudo. A minha bolha falhou-me, mentiu-me e eu meti-me em mais uma aventura. Um duatlo! Sim, um duatlo com corrida, btt e mais corrida no fim. Pois são bolhas. Nos pés (acho que me vão cair as unhas). Dores nas pernas, não vão cair mas ficaram abananadas. Como é que uma Gaja de cinquenta anos acha que pode confiar assim na sua bolha ein?


sexta-feira, 19 de maio de 2017

La tortura

Trabalhar todas as sextas feiras no antro da confraria do pastel de nata não é bom. Temo ficar com a visão e o olfato definitivamente comprometidos.... 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Sopro

Hoje acordei amarrotada, envelhecida, praticamente desprendida, tristemente ausente e desnudada.  Desejosa de que a ventania que se fazia ouvir nas frinchas das minhas janelas me arrancasse e levasse para bem longe assim que eu abrisse a porta e saísse para a rua.
Voltaria quando o sol brilhasse e o vento amainasse.  Voltaria quando um pequeno sopro o meu coração sossegasse.
Não me levou, mas ainda vai levar.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Vidas

Por entre as vidas eloquentes e intensas, marcantes e especiais, dramáticas ou felizes que há por aí, a minha é só uma vida.
Há quem seja rico, descendente da realeza, conduza um Porsche. Há quem seja especialmente bonito, ou se destaque pela altura, ou saiba escrever, pintar, correr, cantar. Há quem seja bom pai, bom filho ou a esposa exemplar. Há quem trabalhe num lugar de chefia, seja um líder ou tenha algum atributo que faz de si um ídolo ou um exemplo a seguir.
Eu não sou nada nem ninguém e nunca fiz nada de grandiosamente espetacular. Talvez por isso a minha vida seja apenas e só uma vida. Uma vida onde por vezes faz sol e por vezes chove, uma vida ora monótona, ora cheia de sobressaltos. Mas uma vida. A minha.

E enquanto penso nisto, há um pequeno aranhiço a passear-se no meu ecrã.
Um aranhiço é prenúncio de dinheiro não é? 
Parece então que a minha vida vai mudar...

domingo, 14 de maio de 2017

Encontro

Olhei devagar, demoradamente, perdi-me no horizonte azul, raiado de montículos de nuvens brancas. Não te encontrei. Nem a mim.
Percorri caminhos apertados e estradas longínquas e sinuosas, quilómetros sem fim. Não te encontrei. Nem a mim.
Corri, nadei, voei, cantei, chamei, gritei. Não te encontrei. Nem a mim.
De súbito abri bem os olhos e vi. Vínhamos os dois, de mão dada pelo areal num passo lento e curto. Os pés descalços a chapinhar na água, as almas nuas de tudo e de todos. Vínhamos os dois, encontrámo-nos um ao outro.

Voltemos então às nossas vidinhas

 O Papa já se foi, o Salvador já ganhou e as rotundas já estão limps e desimpedidas das comemorações da vitória do Benfica.
Muitas lições aprendemos este fim de semana. Que elas nos sirvam para as nossas vidas. Voltemos então a elas...

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Digam o que disserem

O Homem vestido de branco a sorrir, a beijar as crianças, milhares de velas, as lágrimas nos rostos de quem sente o coração apertado, os cânticos.
Concordem ou não, gostem ou não, acreditem ou não. A fé é mesmo um "pormaior".
Emocionei-me

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Chegou!

Após uma incursão pelo IMTT online, após uma viagem a uma agência documental, após três visitas ao próprio IMTT, uma das quais para descobrir que eu e outra pessoa tinhamos o mesmo número de carta de condução e outra para uma entrevista para provar que a minha permissão de conduzir não era falsa, quatro longos meses depois, após chegarem os registos manuscritos dos arquivos centrais de Évora e dos de Lisboa e de chegarem  a conclusão que alguém, algures no tempo tinha cometido um erro, chegou finalmente a renovação da minha carta de condução. Já não estou fora da lei. Yeihhh!

Outras

É nos dias em que me falham as palavras que mais emoções se atropelam dentro de mim. Talvez porque sinta alegria, mas ao mesmo tempo tristeza, talvez porque tente respirar fundo e me falte o ar, talvez porque sinto sol cá dentro e veja a chuva lá fora, não as consiga catalogar e verbalizar.
Recorri ao meu índice de emoções para escolher e lhes dar um nome, percorri-o de alto abaixo e apenas escolhi o último item.
Diz:
* Outras...

Agora sim

Sou uma gaja que está na moda.
Não que tenha comprado uns sapatos da última coleção Jimmy Choo, uns óculos de sol Prada ou uma mala Louis Vitton. Não.
Eu comprei e estou a comer umas bolachas integrais de grãos ancestrais, isto é, quinoa, chia e linhaça. Agora sim, sou uma gaja que está na moda.
E não é que nem são más?

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Filhos de ninguém

Abri a janela de par em par para sorver a brisa fresca da manhã e encher os pulmões de alegria e de esperança. Enquanto ouço o chilrear dos passaritos penso nos filhos de ninguém.
E eu tenho um.
Jurei a mim mesma que este ano não me ia doer quando chegasse o fim do dia sem receber um beijo e um "feliz dia da Mãe" deste meu filho de ninguém.
Não recebi.
E continua a doer. Muito.
Todos os anos me dói. Não só neste dia, mas em todos os dias em que ele teima em ser filho de ninguém...

sábado, 6 de maio de 2017

Fátima

Fizemo-nos ao caminho que eu queria porque queria, ir ver o terço gigante e em que é que paravam as modas por Fátima e quem sabe até, captar alguns momentos para vos elucidar sobre os preparativos da vinda do Papa Francisco de que tanto se tem falado na TV. Subimos, subimos, descemos, voltámos a subir, perdemo-nos nos trilhos, voltámos a encontrá-los. Os caminhos para Fátima não são nada fáceis, mas tentámos ir depressa pois à vinda ainda queríamos parar na Feira de Leiria para comer uma fartura, no entanto não pudemos passar dos 40 :-)


Morremos na praia! 
Não vi o terço gigante, não vi as modas, não apreciei o ambiente, não tive o meu momento de silêncio introspetivo que sempre sinto lá, não me arrepiei com aquela paz. A dez quilómetros de Fátima, uma avaria obrigou-nos a encurtar caminho. 


A fartura é que não pôde faltar e em vez de uma comi duas. Sou uma bruta eu sei. Não vos mostro para não ficarem invejosos, ok?
Até amanhã

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Estranha forma de ser

Esta que por vezes se apodera de mim.
Tenho em mim umas asas que tanto se abrem e me deixam voar qual pássaro tonto em dias mornos de primavera como se fecham e me prendem à terra, quedando-me quieta e quase sem vida.
Tenho em mim umas palavras que tanto saem que se atrapalham umas às outras, como se me prendem e enrolam na garganta sem que as consiga proferir.
Tenho em mim tamanho amor, ansioso por se espalhar e em chegando a hora fica apenas a olhar.
Tenho beijos, tenho abraços, tenho lágrimas à flor da pele.
Tenho calor, tenho frio, sinto alegria e logo um arrepio.
Estranha forma de ser.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Agridoce

É uma confusão o que sinto cá dentro, um turbilhão, uma loucura de atitudes boas e más que gira na minha cabeça e me confunde, um conjunto de palavras ditas sem sentir que se esfuma sempre que o ego de cada um fala mais alto. E depois há os outros, aqueles que não falam mas nos mostram o quão estão lá para nós e para os outros.
É uma confusão o que sinto cá dentro e por mais anos que viva nunca vou estar preparada para deixar de me surpreender com pessoas. Umas pela positiva, outras pela negativa.
Achava que sabia ler olhos e corações, decifrar sorrisos. Mas não. O mais engraçado é que já nem dói.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Hoje foi dia de desafio

Mais do que mais um desafio concluído, foi sentir que de alguma forma ajudei alguém a participar e a superar-se. Mais do que a minha própria superação, foi saber colocá-la de lado para ajudar alguém a consegui-la. Estou feliz.


sexta-feira, 28 de abril de 2017

O que nos mostram

Sorrir quando quer chorar, correr quando que parar. Não poder quando quer amar, contrariar quando quer apoiar, apenas olhar quando quer abraçar.
Nem sempre aquilo que nos mostram é mesmo o que nos mostram.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Noventa e seis horas

Eu vi serras eu vi mares
Eu pedalei sem parar
Estou demente eu sei
Mas é assim que gosto de estar


Quatro dias, noventa e seis horas, cinco mil setecentos e sessenta minutos de suposta pausa e descanso. Nestes dias pedalei tresentos e quarenta quilómetros. Pois. Larguei tudo e pedalei.
Além de dores no rabo e nas pernas, não sei o que procuro ou sequer se procuro alguma coisa. Talvez fuja de algo não sei, só sei que estes momentos me fazem esquecer. Esquecer do estado do mundo, da pequenez de algumas pessoas, da ingratidão de outras, do trabalho por resolver, das paredes da sala à espera de serem lavas, da roupa por engomar. Do meu lado negro também.
A questão é que quando chego a casa tudo está igual. 
Exceto eu.


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Prazer solitário

Colhi um pouco de sol
Colhi um pouco de mar
Guardei-os no meu bolso
Para mais tarde me deleitar

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Para sempre

A cuidar das flores te imagino
Nestes dias de saudade
E sempre que elas florescem
Penso em ti até à eternidade....

terça-feira, 18 de abril de 2017

Difícil de entender

Não compreendo esta angústia que por vezes me nasce no peito durante a noite apanhando-me adormecida e desamparada e acorda juntinho a mim em algumas manhãs cinzentas. Tolda-me o pensamento, atrofia-me o espírito, tira-me o ar e me inunda de tristeza. Aparece sempre em alturas inesperadas chegando de mansinho e pintando de cinzento tudo à minha volta.
Não compreendo.
Assim como não compreendo que se vá desvanecendo, dissipando ao longo do dia transformando-se em alegria e boa disposição.
Chego a pensar que o meu outro eu, sim tenho um outro eu, mais escuro e tenebroso, esteja à tentar apoderar-se de mim....

Quem diz que uma bike não cabe num Mini?

Está enganado pois está. Eu própria jurava que não cabia.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Guerra, só depois do café

A vida é uma guerra, o trabalho é uma guerra, as pessoas são um guerra. Eu própria sou uma autêntica guerra e todos os dias me levanto e me apronto para tal.
No entanto, guerra que é guerra, só depois do café que antes não há cá guerra para ninguém.
E o café tem de ser curto, intenso, sem açúcar e bem cedinho que gosto de começar as guerras assim que nasce o dia.
Mas havia de fazer uma pausa na guerra que estou a ficar cansada.
Mesmo com café as Guerreiras têm de descansar. Não têm?

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Mulheres polvo

Não sei quem decidiu dizer que as mulheres são multifunções e conseguem pensar e fazer várias coisas ao mesmo tempo. Bom, até somos e até pensamos e até fazemos montanhas de coisas enquanto o diabo esfrega um olho, mas, mas... Então e quando pela milésima vez chegamos a casa a correr à hora de jantar o próprio jantar e verificamos que não pensámos no simples pormenor de tirar algo da arca antes de sair de casa às oito da matina e esgotámos todas as ideias e improvisos e nem sequer encomendámos um frango de plástico na loja da esquina, ein? E quando temos a casa cheia de homens esfomeados que só sabem fazer uma coisa de cada vez que é estrelar ovos e/ou colocar no microondas comida congelada ein? Bom gente entendida e estudiosa, ou decidem que também os homens conseguem pensar e fazer várias coisas ao mesmo tempo incluindo de manhã lembrarem-se que têm de jantar à noite e saberem cozinhar sem destruir a cozinha ou eu quero ter uma pilinha para não ter que pensar em nada. Aliás, para pensar apenas uma coisa de cada vez, como ter fome por exemplo.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Quem tem amigas assim...

Que oferecem massagens de relaxamento no aniversário cá de moi même, tem tudo.
Fui hoje receber o meu presente, Oh! coisa mais boa.
Faço anos em Janeiro, alguém quer adiantar-se, quer?


domingo, 2 de abril de 2017

Sonhar, sempre

Esta manhã quando acordei preparei-me para guardar os sonhos debaixo da almofada e vestir a pele profissional para a semana, mas depois pensei, porquê? Porquê guardar os sonhos e não dar-lhes asas todos os dias, porque não deixá-los voar a nossa volta, pintar-nos o céu de sorrisos, a terra de alegrias e o coração de esperança? Porque não deixá-los fazer parte das nossas rotinas. Porquê? Trouxe-os comigo.

sábado, 1 de abril de 2017

Cenas alternativas

Estica aqui, torce ali, empurra, puxa, para os lados, para a frente, para trás, agulhas ao longo da perna, fita adesiva e até à próxima sessão. Aguardo a construção das palmilhas para corrigir os pés que no final de contas me causam as dores no joelho e na perna e me impedem de correr e caminhar sem dor. Daqui a mais umas sessões estou nova diz o matulão de dois metros que me anda a esticar. Sem químicos, sem contra indicações, sem efeitos secundários.
Cenas alternativas... 

terça-feira, 28 de março de 2017

Nunca é tarde

Foi quando o cinzento se apoderou dos meus dias e da minha vida, foi quando os meus filhos cresceram e ficaram independentes não querendo mais uma mãe galinha atrás deles, foi quando os meus amigos estavam ocupados, foi quando me sentia só. Foi quando os meus dias ficaram vazios e o meu tempo enorme, tão enorme que não sabia o que fazer com ele. Perdi-me, tentei achar-me, voltei a perder-me e o meu barco andou à deriva num mar revolto por algum tempo. Peguei porém no leme e tentei reajustá-lo. E reajustei-o pois foi aos quarenta e quatro anos que descobri uma nova paixão. E desde então que não paro de crescer e de aprender e de concretizar sonhos....


domingo, 26 de março de 2017

Vulnerabilidade

Olho para esta página em branco e vejo-a nua tal como me vi a mim um dia destes, nua no corpo e na alma, despida de tudo e de nada, como quem sobe ao púlpito e perante uma imensa plateia se lhe varrem as palavras. Ouvi as instruções que já conheço de cor, resignada e convencendo-me que há coisas de que não gostamos mas temos de fazer para o nosso próprio bem. E enquanto a máquina me apertava e espalmava as mamas, eu nua, percorria a plateia com os olhos à procura de um sorriso ou uma palavra de incentivo. Elas vieram, que um bom profissional sabe fazer bem o seu trabalho, mas não foi por isso que deixei de me sentir vulnerável e insegura, nua de roupa e de alma. Da plateia trouxe um "sim, está tudo bem". E uma constipação.

sábado, 25 de março de 2017

Há dias em que não sei o que é que sei. Mas de todas as coisas que não sei que sei, uma eu sei. A vida tanto tem de maravilhosa como de fodida.

Ramalhete




Dizem que é primavera mas as bátegas de água tocadas a vento embatiam nas minhas janelas. O frio gelado entrava por baixo da porta e eu quase tremia de frio. A pedalada não aconteceu. Não fui ver o mar, não fui até à serra, não me embrenhei pelos pinhais adentro neste momento prenhes de água. Sentindo-me presa, fechada e sem ar fui até ao quintal de Mamãe ver as camélias. Todas caídas no chão. As laranjas também assim como muitos botões de flores que entretanto haviam de desabrochar. O quintal estava cinzento e triste. Tal como eu. Um gato desconhecido e felpudo dormia enroscado debaixo do telheiro, um casal de melros namoriscava em cima da cerca. Tudo à espera... Fiquei gelada, colhi apenas um ramalhete de salsa e coentros para o jantar e corri para casa também eu à espera. Da primavera.

segunda-feira, 20 de março de 2017

A minha chave

Trago comigo uma chave. Esta chave abre e fecha gavetas todos os dias da minha vida. Hoje peguei nela cuidadosamente e abri a gaveta que fica à minha esquerda, coloquei lá o mau humor e a melancolia que esta primavera cinzenta me trouxe e tirei o meu melhor sorriso. Abri de seguida a que estava logo acima e coloquei lá os problemas e os contratempos, tirei a alegria que embora um pouco envergonhada anda aqui a rondar. Guardei a chave para amanhã.

domingo, 19 de março de 2017

Alinhar os chakras

Não sei o que raio é isso dos chakras mas que anda por aqui alguma coisa desalinhada lá isso anda. Foi por isso que aceitei mais um desafio, caminhada de 16 kms pela Fórnea, mesmo ao lado de Porto de Mós na Serra de Aire e Candeeiros no intuito de dar ar à alma e ao corpo e repor energias. 
Já perdi a conta às vezes que lá fui de bike mas a pé foi a primeira vez e não me arrependi nem um pouco, consegui até correr em algumas subidas. Descer é que foi o caraças, acho que me vão cair as unhas dos pés de ir todo o caminho a travar. A serra estava linda como sempre, já cheia de flores e cheirinho a primavera, pena o nevoeiro que não deixava ver muito longe.
Dos chakras não sei, só sei que ainda assim espero que tenham encontrado alinhamento e deixem de me acontecer "cenas" esquisitas.







sexta-feira, 17 de março de 2017

Rei morto, rei posto

Pois tenho a dizer-vos que o meu anjo Gabriel foi um anjo mas não  foi anjo suficiente para me salvar o ecrã do telemóvel que além  do padrão tigresa deixou de funcionar em certas zonas.  Continua deitadinho em cama de arroz para o caso de lhe querer passar. Entretanto já fui comprar outra vida que isto de viver sem vida não é vida.  Vou no entanto manter-me afastada de sanitas.  
Beijinhos e abraços

quarta-feira, 15 de março de 2017

terça-feira, 14 de março de 2017

Haveria de chegar o dia

Em que via a minha vida cair pela sanita abaixo. O telemóvel pois claro...
Depois de o pescar, envolvi-o em papel e corri à procura de ajuda. Salvou-o e Engenheiro Gabriel e não é por acaso o nome de anjo. Abriu-lhe o coração com muito jeitinho, deu-lhe com o desfribrilhador, injetou-lhe um produto para proteção da parte eletrónica, secou-o muito bem sequinho, ressuscitou. Um pouco periclitante ainda, continua a lutar pela vida cheio de tremuras e nervoso miudinho. Tenho agora um écran com padrão tigresa, coisa mai linda. 
Descansa numa taça de arroz, a ver se lhe passa.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Filhos que podiam ser os meus

Dou por mim a pensar como os meus dois pintainhos, hoje já belos e espigados frangotes, são tão diferentes um do outro.
Qual mãe galinha, sei que a partir do momento em que se choca um ovo, é-se responsável por ele e posso dizer que os choquei da mesma forma, que o ninho era igualmente, quente, fofo, cheio de amor e muito bem estruturado e que em todo o galinheiro não houve uma galinha ou um galo que os tivesse tratado de maneira diferente. São no entanto e apesar das parecenças físicas, pessoas com atitudes e perspetivas de vida completamente distintas, não querendo com isto obviamente dizer, julgar ou criticar as mesmas. Ser diferente não é ser mau ou ser bom.
Aflora-se-me no entanto uma dúvida, uma questão que sempre se me coloca quando oiço certas conversas, presencio certas coisas e vejo certas notícias, questão esta que me tem acompanhado como se de um karma se tratasse, como se uma cruz de assumidora de culpas tivesse sido inscrita na minha testa desde que decidi chocar dois ovos. Será que quando os granfotes partem um ovo, a culpa é sempre e só dos pais?

domingo, 12 de março de 2017

Olho o espelho e vejo-me demoradamente. 
Todos os dias me vejo e me reconheço e gosto ainda de me ver acabada de acordar. Gosto. 
Gosto quase todos os dias de mim.
É no entanto quando tenho tempo e me detenho em frente ao espelho, quando me olho demoradamente e com calma que vejo como o tempo tem passado por mim, este tempo que não pára, este tempo que não tem tempo de parar um pouco e esperar por mim.
Vejo umas pálpebras a ficarem descaídas outrora esticadas e lisas onde o eyeliner ficava perfeitamente desenhado, umas rugas ao pé dos olhos e da boca que escondem agora a sombra e o batom.  Vejo umas mãos brancas e com manchas, uma pela baça e cansada outrora coberta de sardas de que tanto me orgulhava, um ventre mole, uns ombros escanzelados, umas pernas finas. Sim, esta sou eu, aquela de quem gosto quase todos os dias. É quando tenho mais tempo que gosto menos de mim...


P.S. Vou trocar de espelho :)

quinta-feira, 9 de março de 2017

Clone

Tentei uma vez
No site do IMTT on line renovar a carta de condução. Fácil, barato e cómodo. Não tive sucesso, dava erro nos meus documentos e não conseguia avançar.
Tentei outra vez
Numa agência documental. Caro, fácil e igualmente cómodo. Não conseguiram, havia um erro nos meus documentos, não permitia avançar.
Tentei mais uma vez cheia de convicção e vontade de estar dentro da lei.
No próprio do IMTT ao vivo e a cores. Não consegui, há um erro nos documentos.
Isto é, há euzinha e mais uma outra pessoa com o mesmo número de carta de condução que eu...
E onde é que eu vou agora? à Torre do tombo onde alguém, há trinta e um anos se enganou a registar?
Resta-me esperar que alguém consiga resolver o imbróglio e rezar para que a polícia não me mande parar e veja que a minha carta está caducada...
Ele há coisas, e esta ein?

quarta-feira, 8 de março de 2017

Celebremos

Mulheres! Sejamos felizes vá e deixem-se lá  de tretas, os homens invejosos claro, disso de ser ridículo haver um dia da mulher e de que até precisamos de assinalar o nosso  dia e bla, bla, bla whiskas saquetas. Nós  somos mesmo especiais, eu pelo menos sou e hoje até  recebi uma flor e tive direito a uma massagem no meu local de trabalho. Ein? Especial mesmo.
Partilho a minha flor com todas as mulheres especiais :)

terça-feira, 7 de março de 2017

Heranças

Ficou-me de meu pai o gosto à  natureza, ao verde, à  beleza das flores. Ficou-me o gosto de apreciar o plantar para um dia ver nascer e crescer,  coisa que ele fazia nas poucas horas vagas que tinha.
E todas as primaveras tenho o privilégio de o ver sorrir, ainda que em pensamento, de o ouvir chamar-me para me mostrar orgulhosamente o que plantou para mim, para nós. Herdei uma cerca de camélias, um caminho de narcisos amarelos que vão florir lá para  Junho,   uma pérgula de glicínias maravilhosa.  Belos. Tão,  mas tão  belos quanto ele. Um maravilhoso tesouro foi o que eu herdei

segunda-feira, 6 de março de 2017

Ao contrário

Segunda-feira, acordei. O céu apresentou-se-me branco, coberto de neblina e uma chuva miudinha caía, enfadonha, enervante. Fonix! Odeio estes dias em que não  há  céu e eu fico envolta em branco. Dá -me falta de ar, claustrofobia, é  que nem a minha janela nova me salva.
Fiz a minha rotina matinal em modo robot com gestos lentos e olhos a meia haste dando apenas especial cuidado à colocação do fio ao pescoço para a letra do meu nome não  ficar ao contrário. Saí para me envolver no nevoeiro.
Não  resultou, descobri quando cheguei ao trabalho....

quinta-feira, 2 de março de 2017

Expectante

Mostrei-lhe o caminho à direita por o saber direito e com poucas curvas. Anteviam-se-lhe algumas subidas íngremes e difíceis, outras tantas descidas perigosas, percebiam-se umas quantas zonas densas de neblina e logo ali à frente até, um céu negro e cerrado, mas ao fundo vislumbrava-se uma enorme clareira, cheia de luz e de sol, verdes prados e muitos cavalos alados. Nuvens  brancas de algodão faziam sombra aos pássaros pousados nas árvores e uma bela melodia chegava aos nossos ouvidos.
Havia porém um outro caminho, o da esquerda que para ele brilhava num chamamento doirado, coberto de uma aura de sonho e de paraíso, um caminho que aos seus olhos o poderia levar à concretização do seu objetivo. 
A mim parecia-me um caminho impossível pois logo à frente tinha uma curva e até à curva apenas pedras e mato, depois da curva nada se via. Mas o que será que haveria mesmo depois da curva??
Escolheu o caminho da esquerda...
Aguardo expectante à espera de vislumbrar o tal brilho.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Ainda não é desta

Que a palavra "desisto" vai entrar no meu vocabulário.
Correr não é a minha praia, eu gosto é de pedalar na rua em liberdade, mas os meus horários só me permitem pedalar ao fim do dia e no inverno de noite, é perigosa esta aventura. Decidi então fazer-me à estrada e correr ao sabor das luzes da cidade, sempre levo com o vento nas trombas, oiço a minha música e espaireço a alma. Mexer e deitar fora o stress é a palavra de ordem.
No primeiro dia corri sete quilómetros e no dia seguinte não me conseguia mexer. Passados alguns dias, já recuperada, tentei de novo e fui perseguida por três cães, não levava água para os afugentar e corri como se não houvesse amanhã com eles à perna, livrei-me deles por fim mas quase não conseguia chegar a casa de tão cansada. Voltei a tentar por outros caminhos, mas a meio deu-me uma tão grande vontade de fazer cocó que cheguei a pensar entrar por alguma casa adentro para pedir uma ida ao wc. Ao invés, corri até casa praticamente de pernas fechadas a encolher o senhor castanho. Numa nova tentativa, deu-me uma dor na perna que cheguei a casa a andar e coxa. Demorei dias a recuperar.
Mau! Querem ver que tenho de desistir desta ideia? Mau, mau Maria!
Hoje, não vencida ainda pelas contrariedades, esvaziei a tripa antes de sair, levei duas pedras no bolso para atirar aos cães, a perna estava boa mas fui devagarinho. Yes! Corri quase nove quilómetros, não estava nada cansada, corria outros tantos se a minha perna marota não me atraiçoasse.
Esta minha teimosia ainda me mata, mas desistir é que não.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Já passou

Restabelecida foi finalmente a ordem nesta casa que mais parecia o camarim de um circo. 
Entre bigodes, cabeleiras, roupas desencantadas sei lá eu de onde, pinturas e adereços, tudo estava fora do lugar. Três dias de Carnaval e muitos disfarces depois, a gente desta casa finalmente aquietou-se. Filhos dormem a sesta, pais e gatos amolecem no sofá. Uf! Ainda bem que agora é só daqui a um ano, isto dos carnavais já me cansa.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

As palavras que não direi

Nos dias de sol em que acordo cinzenta, quase chuvosa até
Nem sei porquê
Nem sei porque não encontro as palavras, 
Nem sei porque me morrem na garganta ou porque se me afundam no coração
São palavras que calo, silêncios que grito, emoções que abafo
Nem sei porquê
Só hoje talvez... 
                    



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Anjo da guarda

Nas tuas asas me agacho
Nas tuas asas me cresço
Nelas me escondo e nelas me revelo

São asas de anjo, são asas de amor

Que nunca me falhem....

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A minha janela nova

O céu  está  azul. Um azul intenso mesmo à  minha frente, preguicoso e dengoso, esbatido ao fundo. Os cumes das árvores dançam num embalo lento e doce como quem me acena um cumprimento bem disposto. O ar ameno entra pela greta da janela aberta inundando a sala de fresco.  Uma ponta de serra na linha do horizonte, tão  tranquila e soberba como que a chamar por mim. Tenho uma janela nova.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Domingo à tarde

Refastelada eu no sofá de pernas no ar a descansar o corpinho de horas de pedaladas ao sol, batem à  porta. Uma senhora de saco de plástico  na mão a pedir ajuda para alimentar o seu filho. Começou  a contar-me a triste e desgraçada vida dela.... triste mesmo.
Ajudei a encher o saco, mas triste mais triste do que andar de casa em casa num domingo de sol a pedir comida, só  mesmo as canções do nosso festival da canção. ...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Eu gosto é de levar com o vento nas trombas

Pois gosto. Gosto é de pedalar ao ar livre, gosto é de saborear as lágrimas que me caem dos olhos por causa do vento, gosto do cheiro dos pinheiros, das paisagens, do barulho dos riachos e dos pássaros a cantarem à minha volta, gosto de ver as folhas a esvoaçarem à minha passagem, gosto de andar horas de sorriso na cara, gosto de ficar suja de lama, gosto de ficar com as pernas cansadas, o cu dorido, o cabelo colado à cabeça  e gosto de ficar com a alma livre, leve e solta. 
Tem sido difícil pois tem, com os temporais dos últimos tempos e depois de praticamente ter ficado entrevada ao decidir correr uma data de quilómetros a fugir da chuva quando há meses não o fazia resolvi montar a bike nos rolos, colocar imagens do National Geographic no PC mais uma banda sonora de passarada a chilrear e pedalar sem sair do lugar. À falta de cão, olhem, caço com gato. Podia até ser a mesma coisa pois podia, mas não é. Eu gosto é de levar com o vento nas trombas. Snif!



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Não gosto

Não gosto quando me arrombam os dias.
Metem-me o pé de cabra à porta e entram pelo meu dia adentro sem que eu consiga impedir. 
Trocam-me a tarde com a manhã, reviram-me as horas, deixam-me os minutos fora do sítio sem que os consiga encontrar. A calma fica assustada, a concentração foge com medo e o raciocínio fica num alvoroço.
Gosto ainda menos quando me arrombam as noites. Trocam-mas pelos dias, reviram-me os sonhos, desarrumam-me o descanso. A cama fica toda embrulhada, a pele exaltada e a rotina alterada.
Já venho, vou buscar uma corrente e um cadeado.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

É

E no meio do barulho que melhor oiço o silêncio.
É no escuro que melhor vejo a claridade

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Gostava

Sempre que as oiço, dizendo-as ou ouvindo-as sem que queira, juro a mim mesma que um dia vou ser capaz. Se há palavras, que eu sei, que voam com o vento, outras há que ficam gravadas no tempo, suspensas por um pequeno e ténue fio de voz num qualquer recanto da memória. Essas, as que ficam, são muitas vezes como pequenas agulhas que se vão espetando na pele e que a nós e aos outros fazem doer em certos momentos. E doem uma eternidade...
Talvez possa ainda chegar o dia em que eu consiga dourá-las, contorná-las, enfeitá-las com flores e berloques para que não mais doam. Gostava. É que eu teimo em acreditar em palavras...

Esternocleidomastoideo!
Hoje esta dói-me p'ra caraças.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Pintei



Lanterna para a noite

Pintei uma porta para o mundo e saí
Pintei uma janela para o amor e amei
Pintei uma lanterna na noite e olhei
Pintei estrelas, pintei flores
Pintei o céu e o mar
Pintei filhos, pintei mães
Pintei a alegria e a felicidade
Pintei...



sábado, 4 de fevereiro de 2017

E após vinte e um dias de pausa forçada pedalei!
Acordei e não quis saber de nada, peguei na bike e fiz-me ao caminho. Contra o vento, contra a chuva, contra o tempo, fui. O vento estava tão forte que dificultava a pedalada e me empurrava para trás mas em chegada à praia verifiquei que o mar amainou e pareceu-me até ver um pequeno raio de sol a tentar furar por entre as nuvens, chuva nem vê-la. Não vi vivalma, não me cruzei com ninguém por aquelas bandas, mas não há que fiar pois à vinda para casa assim que resolvi agachar-me atrás de um pinheiro para escorrer a água às azeitonas ao ar livre apareceu um carro, dois corredores e uma moto. Raios, uma Gaja já nem pode fazer uma mijinha no pinhal descansada...
Foram apenas trinta quilómetros mas alegraram o meu coração. 
Bom fim de semana.